sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Ovo e a Galinha

De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.
O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nação chinesa.
O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.
O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.
E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.
Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. É com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.
De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.
A galinha não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.
Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.
E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.
Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação. Houve outro também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.
Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.
Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.
Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.
Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tão cansada.
Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.

O Búfalo

Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.

Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar. Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh Deus, quem será meu par neste mundo?"
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa. E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.
Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido. Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora pequena, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido. A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos. O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera. E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro. O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UMA PAIXÃO NO DESERTO


HONORÉ DE BALZAC


“Que espetáculo pavoroso!”, exclamou ela ao sair do zoológico do sr. Martin. Acabava de contemplar aquele ousado pesquisador trabalhando com sua hiena, para falar em estilo de anuncio.
“Por que meios” continuou, “ele pode ter domado seus animais a ponto de estar bastante seguro de que sentem afeto por…”
“Esse fato, que lhe parece um problema”, respondi interrompendo, “é no entanto uma coisa natural…”
“Oh!”, ela exclamou, deixando vagar por seus lábios de incredulidade.
“Quer dizer que a senhora acredita que as feras são inteiramente desprovidas de paixões?”, indaguei. “Saiba que podemos dar-lhes todos os vícios devidos ao nosso estado de civilização.”
Ela me olhou com ar atônito.
“Mas”, retornei, “ao ver pela primeira vez o senhor Martin, confesso que me escapou, como à senhora, uma exclamação de surpresa. Encontrava-me na ocasião próximo de um velho militar cuja perna direita fora amputada e que entrara comigo. Essa figura chamara minha atenção. Era um desses rostos intrépidos, marchados pelo sinete da guerra e sobre os quais estão escritas as batalhas de Napoleão. Aquele velho soldado tinha sobretudo um ar de franqueza e de alegria que me provoca sempre uma predisposição favorável. Era sem duvida um desses soldados a quem nada surpreende, que vêem graça na contorção final do rosto de um camarada, que o sepultam ou saqueiam satisfeitos, que interpelam as balas com autoridade, cujas debilerações, enfim, são curtas, e que confraternizariam com o diabo. Depois de ter contemplado com muita atenção o proprietário do zoológico no momento em que saía da jaula, meu companheiro enrugou os lábios de forma a demonstrar um desdém zombeteiro por intermédio daquele tipo de muxoxo significativo que se permitem os homens superiores para fazer-se distinguir dos tolos. Assim, quando manifestei minha admiração pela coragem do sr. Martin, ele sorriu e me disse com jeito competente balançando a cabeça: ‘Grande coisa!…’
“‘Como, grande coisa!’, respondi. ‘Se o senhor quiser explicar-me tal mistério, lhe serei muito grato.’”
“Após alguns instantes durante os quais travamos conhecimento, fomos jantar no primeiro restaurante cuja fachada se ofereceu a nossos olhos. À sobremesa, uma garrafa de vinho da Champanha devolveu às memórias daquele curioso soldado toda a sua clareza. Ele me contou sua história, e vi que tinha razão em exclamar: — Grande coisa!”
De volta à casa dela, ela usou de tantos artifícios, fez tantas promessas, que consenti em redigir-lhe a confidencia do soldado. No dia seguinte, portanto, ela recebeu este episodio de um epopéia que poderíamos intitular: Os franceses no Egito.


***


Quando da expedição empreendida no Alto-Egito pelo gal. Desaix, um soldado provençal, tendo caído prisioneiro dos magrebinos, foi levado por aqueles árabes para os desertos situados alem das cataratas do Nilo. A fim de pôr entre eles e o exército francês um espaço suficiente para sua tranqüilidade, os magrebinos fizeram uma marcha forçada e não pararam antes de caída a noite. Montaram acampamento em torno de um poço ocultado por palmeiras, junto às quais haviam anteriormente enterrado algumas provisões. Sem supor que a idéia de fugir pudesse ocorrer a seu prisioneiro, eles se contentaram com amarrar-lhe as mãos e adormeceram todos depois de comer algumas tâmaras e dar cevada a seus cavalos. Quando o ousado provençal viu seus inimigos fora de condições de vigiá-lo, serviu-se de seus dentes para apossar-se de uma cimitarra e, usando os joelhos para fixar a lâmina, cortou as cordas que lhe impediam o uso das mãos e libertou-se. Prontamente se apropriou de uma carabina e de um punhal, abasteceu-se com uma provisão de tâmaras secas, um pequeno saco de cevada, pólvora e balas; cingiu uma cimitarra, montou sobre um cavalo e esporeou vivamente na direção em que supunha estar o exército francês. Impaciente por rever um brivaque, tanto apressou o corcel já cansado que o pobre animal expirou, com os flancos dilacerados, deixando o francês no meio do deserto.
Depois de caminhar na areia por algum tempo com toda a coragem de um presidiário fugitivo, o soldado foi obrigado a parar, o dia terminava. Apesar da beleza do céu durante as noites no Oriente, não se sentia com forças para continuar seu caminho. Felizmente conseguira galgar uma protuberância no topo da qual se erguiam algumas palmeiras, cujas folhagens avistadas muito antes haviam despertado em seu coração as mais doces esperanças. Sua exaustão era tão grande que ele se deitou sobre uma laje de granito, talhada com capricho em forma de cama de campanha, e ali adormeceu sem tomar nenhuma precaução para sua defesa durante o sono. Ele dera sua vida em sacrifício. Seu ultimo pensamento chegou a ser um remorso. Já se arrependia de ter deixado os magrebinos, cuja vida errante começava a sorrir-lhe, desde que se vira longe deles e sem socorro. Foi acordado pelo sol, cujos raios impiedosos, caindo em cheio sobre o granito, produziam ali um calor intolerável. Ora, o provençal fizera a tolice de posicionar-se no sentido inverso da sombra projetada pelas cabeças verdejantes e majestosas das palmeiras… Olhou para aquelas árvores solitárias e sentiu um calafrio! Elas lhe lembravam as hastes elegantes e coroadas de longas folhas que caracterizam as colunas sarracenas da catedral de Arles. Mas quando, depois de contar as palmeiras, ele correu os olhos em torno de si, o mais terrível desespero fundiu-se sobre sua alma. Viu um oceano sem limites. As areias escuras do deserto se estendiam a perder de vista em todas as direções, e brilhavam como uma lâmina de aço atingida por uma luz viva. Ele não sabia se era um mar de gelos ou se eram lagos unidos como um espelho. Carregado por vagas, um vapor de fogo girava em turbilhões sobre aquela terra movediça. O céu tinha um brilho oriental de um pureza desesperante, porque nada resta a desejar, assim, à imaginação. O céu e a terra ardiam em fogo. O silêncio assustava por sua majestade selvagem e terrível. O infinito, a imensidão oprimiam a alma por todos os lados: não havia uma nuvem no céu, um sopro no ar, um acidente no seio da areia agitada por ondinhas sutis; enfim o horizonte chegava ao fim de um sabre. O provençal abraçou o tronco de uma das palmeiras como se fosse o corpo de um amigo; depois, ao abrigo da sombra delgada e direita que a árvore desenhava sobre o granito, ele chorou, sentou-se e ali ficou, contemplando com uma tristeza profunda a cena implacável que se oferecia a seus olhares. Gritou como para tentar a solidão. Sua voz, perdida nas cavidades da protuberância, entregava à distância um som débil que não despertou nenhum eco; o eco estava em seu coração: o provençal tinha vinte e dois anos, armou sua carabina.
“Estará sempre em tempo!”, disse para si mesmo pousando por terra a arma libertadora.
Contemplando ora o espaço escuro ora o espaço azul, o soldado sonhava com a França. Sentia deliciado os riachos de Paris, lembrava-se das cidades por que passara, dos rostos de seus camaradas e das mais ligeiras circunstâncias de sua vida. Enfim, sua imaginação meridional depressa o fez entrever os seixos de sua querida Provença nos balanços do calor que ondulava acima da manta estendida no deserto. Temendo todos os perigos daquela cruel miragem, ele desceu vertente oposta àquela pela qual subira, na véspera, a colina. Sua alegria foi grande ao descobrir uma espécie de gruta, naturalmente talhada nos imensos fragmentos de granito que formavam a base do montículo. Os restos de uma esteira anunciavam que aquele asilo fora alguma vez habitado. Ademais, a alguns passos avistou palmeiras carregadas de tâmaras. Então o instinto que nos prende à vida despertou em seu coração. Ele esperou viver o suficiente para aguardar a passagem de um grupo de magrebinos, ou, quem sabe!, ouviria em breve o barulho dos canhões; pois, naquele momento, Bonaparte percorria o Egito. Reanimado por esse pensamento, o francês abateu alguns cachos de frutos maduros sob o peso dos quais as tamareiras pareciam vergar-se, e teve a certeza, ao provar daquele maná inesperado, de que o habitante da gruta havia cultivado as palmeiras. Com efeito, a polpa saborosa e fresca da tâmara acusava os cuidados de seu antecessor. O provençal passou subitamente de um desespero sombrio a uma alegria quase louca. Voltou a subir ao cimo da colina e passou o resto do dia ocupado em cortar uma das palmeiras infecundas que, na véspera, lhe haviam servido de teto. Uma vaga lembrança fê-lo pensar nos animais do deserto; e, prevendo que poderiam vir beber naquela fonte perdida nas areias que surgia ao pé do quartel de rocha, resolveu garantir-se contra suas visitas pondo uma barreira à entrada de seu refugio. Apesar de seu ardor, apesar das forças que lhe dava o medo de ser devorado durante o sono, foi-lhe impossível cortar a palmeira em vários pedaços no mesmo dia; mas conseguiu abatê-la. Quando, à noitinha, aquela rainha do deserto caiu, o ruído de sua queda ressoou ao longe, e foi como um gemido solto pela solidão; o soldado estremeceu como se tivesse ouvido alguma voz a prever-lhe uma desgraça. Mas, como um herdeiro que não lamenta por muito tempo a morte de um progenitor, ele desnudou a bela árvore das grandes e altas folhas verdes que são seu adorno poético e as usou para consertar a esteira sobre a qual se deitaria. Fatigado pelo calor e pelo trabalho, adormeceu sob os lambris vermelhos de sua gruta úmida. No meio da noite seu sono foi perturbado por um ruído extraordinário. Sentou-se, e o silêncio profundo que reinava lhe permitiu reconhecer o tom alternativo de uma respiração cuja energia selvagem não podia pertencer a uma criatura humana. Um medo profundo, ademais acrescido pela obscuridade, pelo silencio e pelas fantasias do despertar, gelou-lhe o coração. Ele mal sentia a dolorosa contração de seu couro cabeludo quando, à força de dilatar as pupilas de seus olhos, avistou na escuridão dois brilhos fracos e amarelos. A principio atribuiu aquelas luzes a um reflexo qualquer de sua retina; mas logo, a claridade viva da noite ajudando pouco a pouco a distinguir os objetos que se encontravam na gruta, ele avistou uma enorme animal deitado a dois passos de si. Seria um leão, um tigre ou um crocodilo? O provençal não tinha instrução suficiente para saber em que subgênero estava classificado seu inimigo; mas seu terror foi tanto mais violento quanto sua ignorância o fez supor todas as desgraças juntas. Suportou o cruel suplício de escutar, de perceber os caprichos daquela respiração, sem nada deixar escapar e sem ousar permitir-se qualquer movimento. Um odor tão forte quanto aquele exalado pelas raposas, contudo mais penetrante, mais grave, de certa forma, enchia a gruta; e depois que o provençal o degustou com o nariz, seu terror chegou ao cúmulo, pois ele não mais podia relegar à dúvida a existência do terrível companheiro cujo antro real lhe servia de tenda. Logo os reflexos da lua que se precipitava em direção ao horizonte, iluminando o covil, fizeram sutilmente resplandecer a pele malhada de uma pantera. Aquele leão do Egito dormia, enrodilhado como um enorme cão, tranqüilo proprietário de um nicho suntuoso à entrada de uma mansão; seus olhos, abertos por um momento, tinham-se fechado. Tinha o rosto voltado para o francês. Mil pensamentos confusos passaram pela alma do prisioneiro da pantera; a principio queria matá-la com um tiro de fuzil; mas percebeu que não havia espaço suficiente entre ela e ela para mirar, o cano passaria do animal. E se o acordasse? Esta hipótese o deixou imóvel. Ouvindo seu coração bater em meio ao silêncio, maldizia as pulsações demasiado fortes que a afluência do sangue ali produzia, temendo perturbar aquele sono que lhe permitia buscar um recurso salutar. Por duas vezes pôs a mão sobre a cimitarra na intenção de decepar a cabeça do inimigo; mas a dificuldade de cortar um pêlo curto e duro o obrigou a renunciar a seu ousado projeto. — Errar a mira? seria morrer com certeza, pensou. Preferiu os riscos de um combate, e decidiu esperar pelo dia. E o dia não se fez aguardar por muito tempo. O francês pode então examinar a pantera; seu focinho estava tingido de sangue. “Ela comeu bem!…”, pensou ele, sem se preocupar em saber se o festim fora composto de carne humana, “não terá fome ao despertar.”
Era uma fêmea. A pelagem do ventre e das coxas brilhava de alvura. Várias manchinhas, semelhante a veludo, formavam belas pulseiras ao redor das patas. A cauda musculosa era igualmente branca, mas terminada por anéis negros. A parte de cima do pêlo, amarela como ouro fosco, mas bem lisa e suave, tinha aquelas pintinhas características, com nuances em forma de rosas, que servem para distinguir as panteras das outras espécies de felis. Aquela anfitriã tranqüila e temível roncava numa pose tão graciosa quanto a de uma gata deitada sobre a almofada de um divã. Suas patas ensangüentadas, nervosas e bem armadas, estavam à frente da cabeça que repousava por cima, e da qual partiam barbas raras e direitas, semelhantes a fios de prata. Se ela estivesse assim dentro de uma jaula, o provençal teria sem dúvida admirado a graça do animal e os vigorosos contrastes das cores vivas que davam à sua samarra um brilho imperial; mas naquele momento ele sentia sua vista perturbada por esse aspecto sinistro. A presença da pantera, mesmo adormecida, fazia-o experimentar o efeito que os olhos magnéticos da serpente produzem, dizem, sobre o rouxinol. A coragem do soldado acabou por se desvanecer por um momento diante daquele perigo, ao passo que sem dúvida ele teria se exaltado diante da boca dos canhões a vomitar metralha. No entanto, um pensamento intrépido aflorou em sua alma e secou, na fonte, o suor frio que lhe escorria do rosto. Agindo como os homens que, levados ao limite pela desventura, chegam a desafiar a morte e se oferecem a seus golpes, ele viu sem dar-se conta uma tragédia naquela aventura, e resolveu desempenhar seu papel com honra até a última cena.
“Antes de ontem, talvez os árabes tivessem me matado…” — refletiu. Considerando-se morto, esperou, corajoso e com inquieta curiosidade, pelo despertar do inimigo. Quando o sol surgiu, a pantera abriu subitamente os olhos; em seguida estendeu violentamente as patas, como para desentorpecê-las e dissipar as dores. Enfim bocejou, mostrando a assustadora aparelhagem de seus dentes e a língua sulcada, dura como uma lima. “Ela parece uma pequena amante!…”, pensou o francês ao vê-la rolar e fazer os movimentos a assustadora aparelhagem de seus dentes e a língua sulcada, dura como uma lima. “Ela parece uma pequena amante!…”. pensou o francês ao vê-la rolar e fazer os movimentos mais suaves e faceiros. Ela lambeu o sangue que tingia suas patas e seu focinho e coçou a cabeça com gestos reiterados cheios de delicadeza. “Muito bem! Faça uma pequena toalete!…”, disse para si mesmo o francês que reencontrava a alegria ao recobrar a coragem. “Vamos desejar-nos um bom dia.” E agarrou o punhalzinho curto que tomara dos magrebinos.
Nesse momento, a pantera voltou a cabeça para o francês e o fitou fixamente, sem avançar. A rigidez daqueles olhos metálicos e sua insuportável claridade fizeram o provençal estremecer, sobretudo quando a fera caminhou em sua direção; mas ele a contemplou com ar carinhoso, de soslaio, como para magnetizá-la, deixou que chegasse perto; depois, com um movimento também suave, amoroso como se quisesse acariciar a mais bela mulher, passou-lhe a mão sobre todo o corpo, da cabeça à cauda, atiçando com suas unhas as vértebras flexíveis que dividiam o dorso amarelo da pantera. A fera ergueu a cauda com volúpia, seus olhos se suavizaram; e quando, pela terceira vez, o francês levou a cabo aquele agrado interesseiro, ela fez ouvir um desses ronrom com os quais nossos gatos exprimem seu prazer; mas aquele murmúrio partia de uma goela tão possante e tão profunda que ressoou na gruta como os últimos roncos dos órgãos em uma igreja. O provençal, ciente da impotência de suas carícias, redobrou-se de forma a atordoar, entorpecer aquela cortesã imperiosa. Quando sentiu-se certo de ter extinguido a ferocidade da caprichosa companheira, cuja fome fora tão felizmente saciada na véspera, ele se ergueu e quis sair da gruta; a pantera permitiu que partisse, mas mal ele vencera a colina e ela saltou com a leveza dos pardais que pulam de um galho a outro e veio esfregar-se contra as pernas do soldado, dando-lhe as costas como fazer as gatas. Então, fitando o hóspede com olhos cujo brilho se tornara menos inflexível, ela soltou aquele grito selvagem que os naturalistas comparam ao ruído de uma serra.
“Ela é exigente!”, exclamou o francês, sorrindo. Experimentou brincar com as orelhas, acariciar-lhe a barriga e coçar com força a cabeça com as unhas. E, ao perceber seu sucesso, fez-lhe cócegas no crânio com a ponta do punhal, espreitando a hora de matá-la; mas a dureza dos ossos fê-lo estremecer de medo de não conseguir.
A sultana do deserto aprovou os talentos do escravo erguendo a cabeça, esticando o pescoço, denunciando sua embriaguez pela tranqüilidade de sua atitude. O francês pensou de repente que, para assassinar de um só golpe aquela feroz princesa, seria preciso uma punhalada na garganta, e ele já erguia a lâmina quando a pantera, satisfeita sem dúvida, deitou-se graciosamente a seus pés lançando de quando em quando olhares em que, apesar de um rigor nativo, transparecia confusamente certo desvelo. O pobre provençal comeu suas tâmaras apoiado em uma das palmeiras; mas uma e outra vez lançava um olhar perscrutador sobre o deserto em busca de libertadores, e sobre sua terrível companheiros para vigiar-lhe a clemência incerta. A pantera olhava o local onde os caroços de tâmara caíam toda vez que ele jogava um, e nesse momento seus olhos exprimiam uma incrível desconfiança. Ela examinava o francês com prudência comercial; mas esse exame lhe foi favorável, pois assim que ele terminou sua magra refeição ela lambeu seus sapatos e, com uma língua áspera e forte, miraculosamente lhes retirou a poeira incrustada nas dobras.
“Mas e quando ela sentir fome?…”, pensou o provençal. Apesar do arrepio que a idéia lhe causou, o soldado se pôs a medir curiosamente as proporções da pantera, certamente um dos mais belos indivíduos da espécie, pois tinha três pés de altura e quatro de comprimento, sem incluir a cauda. Aquela arma possante, roliça como um bastão, tinha quase três pés. A cabeça, grande como a de uma leoa, distinguia-se por uma rara expressão de elegância; a fria crueldade dos tigres dominava ali, mas havia também uma vaga semelhança com a fisionomia de uma mulher dissimulada. Enfim, a imagem daquela rainha solitária revelava naquele momento um forma de alegria semelhante à de Nero embriagado; ela se saciava no sangue e queria brincar. O soldado tentou ir e vir, a pantera o deixou livre, contentando-se em segui-lo com os olhos, assim lembrando menos um cão fiel do que um gordo angorá apreensivo com tudo, mesmo com os movimentos de seu mestre. Quando ele se voltou, avistou ao lado da fonte os restos de seu cavalo, a pantera arrastara o cadáver até ali. Cerca de dois terços estavam devorados. O espetáculo tranqüilizou o francês. Ficou fácil explicar a ausência da pantera e o respeito que ela tivera para com ele durante seu sono. Essa primeira felicidade lhe deu a audácia de considerar o futuro e ele concebeu a louca esperança de permanecer em termos amigáveis com a pantera durante o dia inteiro, sem desprezar nenhum meio de domá-la e de conciliar suas boas graças. Retornou para junto dela e teve a felicidade inefável de vê-la agitar a cauda com um movimento quase imperceptível. Sentou-se então sem medo a seu lado e começaram os dois a brincar, ele agarrou as patas, o focinho, torceu-lhe as orelhas e coçou com força seus flancos quentes e sedosos. Ela permitiu, e quando o soldado tentou alisar-lhe o pêlo das patas, recolheu cuidadosamente as unhas recurvadas como lâminas de damasco. O francês, que mantinha uma mão sobre o punhal, ainda pretendia mergulhá-lo no ventre da confiantíssima pantera; mas temia ser imediatamente estrangulado na última convulsão que a agitaria. E, além disso, ouviu em seu coração uma espécie de remorso que lhe gritava que respeitasse uma criatura inofensiva. Parecia-lhe ter encontrado uma amiga naquele deserto sem limites. Pensou sem querer na primeira amante, a quem apelidara Doçura por antífrase, porque ela era de um ciúme tão atroz que durante todo o tempo que durou sua paixão teve de temer a faca com a qual ela sempre o ameaçara. Essa lembrança de sua juventude lhe deu a idéia de tentar fazer com que a jovem pantera, na qual ele admirava, agora com menos receio, a agilidade, a graça e a languidez, respondesse a esse nome.
Perto do final do dia ele já estava familiarizado com a situação perigosa e quase estimava suas angústias. Enfim sua companheira acabara por adquirir o hábito de olhá-lo sempre que ele gritava em voz de falsete: “Doçura”. Ao pôr do sol, Doçura produziu repetidas vezes um grito profundo e melancólico.
“Ela é bem educada!…”, pensou o alegre soldado; faz suas orações!… Mas essa brincadeira mental só lhe ocorreu depois de notar a atitude pacífica em que permanecia sua camarada. “Vai, minha loirinha, eu permitirei que te deites antes”, disse-lhe, contando com a atividade de suas pernas para escapar o mais depressa possível quando ela adormecesse, a fim de sair em busca de outro abrigo durante a noite. O soldado esperou com impaciência a hora da fuga, e, quando ela chegou, caminhou vigorosamente na direção do Nilo; mas mal completara um quarto de légua nas areias quando ouviu a pantera aos saltos atrás dele, lançando a intervalos aquele grito de serra, mais assustador que o ruído pesado de seus saltos.
“Ora vamos!”, pensou, “ela tomou amizade por mim!… Essa jovem pantera talvez não tenha ainda encontrado alguém, é lisonjeador ter seu primeiro amor!” Nesse momento o francês caiu numa daquelas areias movediças tão temíveis para os viajantes e de onde é impossível salvar-se. Sentindo-se preço, soltou um grito de socorro; a pantera o agarrou com os dentes pela gola; e, saltando com vigor para trás, tirou-o do abismo como por magia. “Ah! Doçura”, exclamou o soldado, acariciando-se com entusiasmo, “agora estamos juntos pela vida e pela morte. Mas sem tramóias?” E voltou sobre seus passos.
A partir daquele momento o deserto ficou como que povoado. Ele continha um ser ao qual o francês podia falar, e cuja ferocidade se amainara para ele, sem que ele entendesse as razões daquela inacreditável amizade. Por mais que o soldado desejasse ficar de pé e em guarda, adormeceu. Ao despertar, não viu Doçura; subiu ao alto da colina e, na distância, avistou-se correndo aos saltos, como é costume desses animais, para os quais a corrida é proibida pela extrema flexibilidade de sua coluna vertebral. Doçura voltou com os beiços sanguinolentos, recebeu as carícias necessárias que lhe fez seu companheiro, chegando a manifestar com vários ronroms graves sua satisfação. Seus olhos cheios de langor se dirigiram ainda com mais suavidade do que na véspera para o provençal, que lhe falava como a um animal doméstico.
“Ah! ah!, senhorita, pois é uma menina de bem, não é? Vê isso?… Gostamos de um carinho. Não tem vergonha? Comeu algum magrebino? Bem! São no entanto animais como a senhorita!… Mas não vá abocanhar os franceses, pelo menos… Eu não a amaria mais!…”
Ela brincou como um cãozinho com seu mestre, deixando-se ora rolar, ora bater, ora elogiar; e por vezes provocava o soldado estendendo a pata para ele, num gesto de pedinte.
Alguns dias se passaram assim. Aquela companhia permitiu ao provençal admirar as sublimes belezas do deserto. Desde que encontrava ali horas de temor e de tranqüilidade, alimentos e uma criatura em que pensar, tinha a alma agitada por contrastes… Era uma vida cheia de oposições. A solidão lhe revelou todos os seus segredos, envolveu-o com seus feitiços. Ele descobriu ao nascer e ao pôr do sol espetáculos desconhecidos do mundo. Soube arrepiar-se ao ouvir acima da sua cabeça o suave assobio das asas de um passarinho — raro passageiro! —, ao ver as nuvens se confundirem — viajantes mutáveis e coloridas! Estudou durante a noite os efeitos da lua sobre o oceano das areias onde o simum produzia vagas, ondulações e rápidas mudanças. Viveu ao sabor dos dias do Oriente, admirou suas pompas maravilhosas; e com freqüência, depois de ter gozado do terrível espetáculo de um furacão naquela planície onde as areias suspensas produziam névoas vermelhas e secas, nuvens mortais, via com deleite chegar a noite, pois então caía o benévolo frescor das estrelas. Ouvia músicas imaginárias nos céus. A solidão o ensinou a desfiar os tesouros do devaneio. Passava horas inteiras a lembrar-se de ninharias, a comparar sua vida passada à vida presente. Enfim se apaixonou por uma pantera; pois bem carecia de uma afeição. Fosse que sua vontade, fortemente projetada, tivesse modificado o caráter de sua companheira, fosse que ela encontrasse alimento abundante graças aos combates que se davam então nesses desertos, ela respeitou a vida do francês, que terminou por não mais duvidar dela ao vê-la tão bem amansada. Ele passava a maior parte do tempo a dormir; mas era obrigado a velar, como uma aranha no interior de sua teia, para não deixar escapar o momento de sua salvação, caso alguém passasse na esfera descrita pelo horizonte. Sacrificara sua camisa para dela fazer uma bandeira, hasteada no alto de uma palmeira desprovida de folhagem. Aconselhado pela necessidade, soube encontrar a forma de mantê-la estendida com o auxílio de gravetos, pois o vento poderia não agitá-la no momento em que o viajante esperado olhasse deserto afora…
Era durante as longas horas em que a esperança o abandonava que ele se divertia com a pantera. Acabara por conhecer as diferentes inflexões de sua voz, a expressão de seus olhares, estudara os caprichos de todas as pintas que matizavam o ouro de sua capa. Doçura já nem mesmo rugia quando ele tomava o tufo que arrematava sua ameaçadora cauda, para contar-lhe os anéis negros e brancos, ornamento gracioso, que brilhava de longe ao sol como pedrarias. Ele tinha prazer em contemplar as linhas macias e finas dos contornos, a brancura do ventre, a graça da cabeça. Mas era sobretudo em suas estripulias que ele a contemplava carinhosamente, e a agilidade, a juventude de seus movimentos, o surpreendiam sempre; ele admirava sua leveza quando ela se punha a saltar, a arrastar-se, a deslizar, a enfiar-se, a agarrar-se, rolar-se, encolher-se, lançar-se para todos os lados. Por mais rápido que fosse seu impulso, por mais escorregadio que fosse um bloco de granito, ela estacava imediatamente ao ouvir a palavra “Doçura…”.
Um dia, sob um sol esplendoroso, um imenso pássaro planou nos ares. O provençal deixou sua pantera para examinar aquele novo conviva; mas, depois de um momento de espera, a sultana abandonada rugiu surdamente. “Eu acho, por Deus, que ela está enciumada”, exclamou ele ao ver seus olhos outra vez rígidos. “A alma de Virginie terá passado para esse corpo, é certo!…” A águia desapareceu nos ares enquanto o soldado admirava as ancas arredondadas da pantera. Mas havia tanta graça e juventude em seus contornos! Era bonita como uma mulher. A pelagem loira de sua capa se unia por tonalidades finas aos tons do branco fosso que distinguia as coxas. A luz profusamente lançada pelo sol fazia brilhar aquele ouro vivo, aquelas manchas castanhas, de forma a dar-lhes atrativos indefiníveis. O provençal e a pantera se olharam com ar inteligente, a coquete estremeceu quando sentiu as unhas do amigo coçar-lhe o crânio, seus olhos brilharam como dois relâmpagos, depois ela os fechou com força.
“Ela tem uma alma…”, disse ele ao estudar a tranqüilidade daquela rainha das areias, dourada como elas, branca como elas, solitária e ardente como elas…

“Está bem”, me disse ela, “li sua apologia das feras; mas como terminaram duas pessoas tão bem-feitas para compreender-se?…”
“Ah! pois bem!… Terminaram como terminam todas as grandes paixões: por um mal-entendido. Acreditamos um e outro em alguma traição, não nos explicamos por orgulho, brigamos por teimosia.”
“E por vezes nos mais belos momentos”, disse ela; “um olhar, uma exclamação bastam. E então, termine sua história!”
“É terrivelmente difícil, mas a senhora compreenderá o que já me havia confiado o velho soldado quando, ao terminar sua garrafa de vinho da Champanha, exclamou: ‘Não sei que mal lhe fiz, mas ela se virou como se estivesse enraivecida; e, com seus dentes pontiagudos me talhou na coxa, de leve, é verdade. Eu, acreditando que ela queria devorar-me, enfiei meu punhal em seu pescoço. Ela rolou soltando um grito que me gelou o coração, vi-a debater-se olhando para mim sem raiva. Eu daria tudo no mundo, minha condecoração, que ainda não tinha, para devolvê-la à vida. Era como se eu tivesse assassinado uma pessoa de verdade. E os soldados que haviam visto minha bandeira e que acorreram em meu socorro encontraram-me desfeito em lágrimas… Pois é, senhor’, retornou após um momento de silêncio, ‘depois disso fiz as guerras da Alemanha, da Espanha, da Rússia, da França; passeei meu cadáver, não via nada semelhante ao deserto… Ah! aquilo sim é que é bonito.’ ‘O que o senhor sentia lá?…’, perguntei. ‘Oh!, isso é coisa que não se conta, rapaz. Aliás, não é sempre que sinto falta de meu buquê de palmeiras e de minha pantera… é preciso que eu fique triste para isso. No deserto, veja bem, há tudo, e não há nada…’ ‘Mas explique?’ ‘Pois é’, retornou ele, deixando escapar um gesto de impaciência, ‘é Deus sem os homens.’”

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TRF-5 decide suspender liminar sobre anulação de questões do Enem

Decisão foi anunciada pelo presidente do TRF-5, Paulo Roberto Lima. Anulação só fica mantida para alunos de colégio de Fortaleza (CE).



O presidente do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), no Recife, desembargador Paulo Roberto de Oliveira Lima, suspendeu a liminar concedida pela Justiça Federal do Ceará e que anulava as 13 questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para todo o Brasil, na manhã desta sexta-feira (04). Segundo a decisão, a anulação só fica mantida para os 639 alunos do Colégio Christus, de Fortaleza (CE), que tiveram acesso às questões antes e agora terão suas notas recalculadas. O Ministério Público Federal do Ceará já informou que vai recorrer da decisão do TRF-5.

A determinação atende justamente à intenção do Ministério da Educação (MEC), que era restringir a decisão da Justiça aos alunos do Colégio Christus. “A liminar considerada atinge a esfera de interesses de cerca 5 milhões de estudantes, espraiando seus efeitos para o ingresso deles nas várias universidades públicas do país, com repercussão na concessão de bolsas, na obtenção de financiamentos e na orientação de políticas públicas. O assunto é grave e influi, sim, na organização da administração”, diz o presidente do TRF-5 em sua decisão.

O desembargador Paulo Roberto de Oliveira Lima comentou ainda que nenhuma solução seria completamente boa. "Isso é próprio dos erros: quase nunca comportam solução ótima. Anular ‘somente’ as questões dos alunos beneficiados não restabelece a isonomia. É que eles continuariam a gozar, para o bem ou para o mal, de situação singular - afinal a prova, para os tais, findaria com menos questões. (...) De outro lado, anular as questões para ‘todos’ os participantes também não restauraria a igualdade violada. Nenhuma das soluções tem condições de assegurar, em termos absolutos, a neutralidade e a isonomia desejáveis”, concluiu.

No início da tarde desta sexta-feira, a assessoria do MEC afirmou que o ministério "considerou que a decisão é justa, e fez justiça a quatro milhões de estudantes que não têm nada a ver com o Ceará". O recurso do ministério foi protocolado na quinta-feira (03) pelo procurador regional federal Renato Rodrigues Vieira e pelos subprocuradores Rodrigo Cunha Veloso e Miguel Longman, todos da Advocacia Geral da União (AGU).

No final da tarde da quinta-feira, o Ministério Público Federal no Ceará, por meio do procurador da República Oscar Costa Filho, oficializou na Justiça o pedido de anulação de mais uma questão do Enem, a questão 25 do caderno amarelo do exame. Se a Justiça acatar a decisão, o Enem terá um total de 14 questões anuladas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Governo desiste de recorrer e 13 questões do Enem são anuladas em todo o País

Com a decisão, passam a valer apenas 167 questões do Enem 2011

Agência Estado

O governo federal decidiu, na manhã desta terça-feira, que não vai recorrer da decisão da Justiça Federal do Ceará, que determinou a anulação de 13 questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Essas 13 questões, segundo investigação da Polícia Federal (PF), vazaram para alunos do colégio Christus, de Fortaleza, Ceará, em outubro do ano passado, após a aplicação do pré-teste.

A nova orientação é seguir a determinação da Justiça e evitar uma nova batalha judicial, como a ocorrida no ano passado, quando o exame chegou a ser suspenso.

Questões anuladas


Com a decisão, passam a valer 167 questões da última edição do Enem. Na avaliação de técnicos do Ministério da Educação (MEC) e do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), mesmo sem 13 das 180 questões do exame, "o teste de avaliação não perde qualidade de seleção".

Foram anuladas, na prova amarela, as questões 32, 33, 34, 46, 50, 57, 74 e 87 (sábado) e 113, 141, 154, 173 e 180 (domingo).

O Planalto orientou o MEC, que é responsável pelo Enem, a não entrar em uma guerra judicial que prejudicaria o governo e arranharia a imagem pública do ministro Fernando Haddad, pré-candidato do PT à prefeitura de São Paulo no ano que vem. No ano passado, a batalha judicial por conta de equívocos como a troca de cabeçalho no cartão resposta e falhas na encadernação chegou a suspender o exame.

Justiça

A Justiça Federal do Ceará decidiu na noite de ontem (31) anular 13 questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), idênticas a perguntas em apostilas distribuídas, poucos dias antes da avaliação, para alunos do Colégio Christus, de Fortaleza. Um álbum com dez fotos no Facebook com as questões iguais foi revelado em primeira mão pelo Estadão.edu, na manhã de quarta-feira, 26.

As perguntas vazaram da fase de pré-testes do exame, aplicados em outubro de 2010 no Christus e em outros colégios do Brasil. Segundo o MEC, todas as questões do Enem são previamente testadas em diferentes grupos de alunos, para calibrar a dificuldade da prova, que deve ser sempre a mesma.

O MEC informara na manhã desta terça-feira que iria recorrer da decisão da Justiça Federal do Ceará que decidiu anular, para todo o Brasil, 13 questões do Exame Nacional do Ensino Médio 2011 (Enem). Segundo o MEC, a decisão foi "desproporcional e arbitrária" e iriam recorrer no Tribunal de Recife ainda esta semana.